Governo de Jair Bolsonaro comunica governo venezuelano que todos os diplomatas chavistas no Brasil devem deixar o país, sob pena de expulsão, e ordena a volta de funcionários brasileiros na Venezuela [1]. Posteriormente, o governo brasileiro estipula prazo de 60 dias para saída dos diplomatas venezuelanos, com término em 02/05. A partir daí, os que permanecerem seriam considerados personae non gratae, isto é, perderiam direito à imunidade diplomática e, caso estejam sem vistos em ordem, passariam para a condição de estrangeiros em situação migratória irregular, sujeitos à expulsão [2]. Em 01/05, o Procurador-Geral da República (PGR), Augusto Aras, envia ofício ao Itamaraty com recomendação de suspensão da ordem de expulsão dos diplomatas venezuelanos no Brasil, tendo em vista a crise gerada pela pandemia [3]. Em 02/05, o ministro do STF, Luís Roberto Barroso, suspende em habeas corpus (HC) por dez dias a ordem de expulsão dos diplomatas venezuelanos, por possível violação a normas constitucionais e a tratados e convenções internacionais [4]. Em seguida, manifestam-se a Advocacia-Geral da União e o Ministério competente pelo indeferimento do HC [5] e o PGR pela incompetência do STF [6]. Em 16/05, Barroso ratifica a decisão dada e mantém a suspensão temporária da ordem [7]. Neste contexto, a imprensa apura informação de que algumas circulares teriam chegado em embaixadas para que diplomatas de seus respectivos países deixem o Brasil. Os comunicados visariam diminuir o número de pessoal dentro das embaixadas, sob justificativa do Brasil ser considerado um país perigoso, por conta da condução temerária do presidente Jair Bolsonaro no combate à crise sanitária instalada [8]. Em setembro, o Itamaraty retira a imunidade diplomática dos representantes venezuelanos e os declara ‘persona non grata’. Na prática, a medida não determina expulsão dos cônsules, mas aponta que eles não são ‘bem-vindos’ no território brasileiro [9]. Em fevereiro de 2021 a PF envia ofícios aos diplomatas chavistas informando que eles têm 60 dias para regularizar a situação migratória enquanto cidadãos estrangeiros comuns ou devem deixar o país [10]. Em maio, com o vencimento desse prazo, a PF instaura inquéritos de deportação, com prazo de 10 dias para apresentação de defesa técnica dos diplomatas [11].
Leia a análise sobre as relações diplomáticas entre Venezuela e Brasil, que explicam o contexto do caso.
Atos que trazem como justificativa o enfrentamento da pandemia de covid-19 ou outra emergência. Sob o regime constitucional democrático, atos de emergência devem respeitar a Constituição e proteger os direitos à vida e à saúde. Mesmo assim, por criarem restrições excepcionais ligadas à crise sanitária, requerem controle constante sobre sua necessidade, proporcionalidade e limitação temporal. A longo prazo, demandam atenção para não se transformarem em um 'novo normal' antidemocrático fora do momento de emergência.
Atos que empregam ferramentas da constante reinvenção autoritária. Manifestações autoritárias que convivem com o regime democrático e afetam a democracia como sistema de escolha de representantes legítimos, como dinâmica institucional que protege direitos e garante o pluralismo.