Impulsionado por pedido do presidente na Mensagem nº 93/2020 do dia 18/03 [1], a Câmara [2] e o Senado [3] aprovam o Decreto Legislativo nº 6/2020 [4] que reconhece estado de calamidade pública no país para fins fiscais. Fica declarado o estado de calamidade pública até 31/12/2020, sem previsão de prorrogação. O decreto prevê a criação de Comissão Mista do Congresso para acompanhar a situação fiscal e a execução orçamentária das medidas relacionadas à pandemia do novo coronavírus. Na prática, o governo é dispensado de cumprir com a meta de déficit primário estabelecido pela Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2020 [5] e com a obrigatoriedade de limitação de empenho e movimentação financeira decorrentes do não atingimento bimestral das metas de resultado primário ou nominal, conforme estipula a Lei de Responsabilidade Fiscal [6]. Vale notar que a declaração de calamidade pública do Decreto serviu de base legal para a implementação de outras medidas excepcionais, como aquelas pautadas na MP 927 [veja aqui], que afetam a regulamentação trabalhista no país.
Leia as análises sobre o que significa a decretação de calamidade pública, as diferenças entre instrumentos de emergência e o impacto do decreto na realização do orçamento do país após quase três meses.
O governo Bolsonaro editou, desde o começo da pandemia, 58 Medidas Provisórias (MPs) [1] e, só nos últimos dez dias, dez MPs [2]. Das 58 medidas editadas, 50 têm relação com a crise da covid-19 [3] e 28 dizem respeito à abertura de créditos orçamentários [4]. O número já superou o total de 48 MPs editadas no ano passado [veja aqui] e é o maior desde a redemocratização [5]. Somente em abril, foram editadas 26 MPs, o que representa recorde mensal desde o ano de 2001 [6]. Em maio, por sua vez, o patamar chegou a quase uma MP a cada dois dias. Este mesmo mês foi marcado por alguns textos de grande repercussão, como a MP 966, interpretada como salvo-conduto a agentes públicos contra a responsabilização durante a crise [veja aqui] e a MP 954, que previa o compartilhamento de dados pessoais entre empresas de telecomunicação e o IBGE [veja aqui], ambas medidas controladas posteriormente pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Em contraposição ao acelerado ritmo de MPs, o número de leis aprovadas em 2020 é o menor em quinze anos, como aponta levantamento de julho [7]; o dado pode revelar desequilíbrios entre poderes, como já apontado no ano passado [veja aqui]. Vale notar que, em março, o governo ajuizou ação no STF (ADPF 663) requerendo prorrogação dos prazos de validade das Medidas Provisórias em tramitação no Congresso Nacional por conta do estado de calamidade pública, o que foi rejeitado [veja aqui], e a Câmara e Senado emitiram em seguida ato conjunto a respeito do regime de tramitação de MPs durante a pandemia [veja aqui].
Leia as análises sobre as MPs editadas até maio, sua tramitação acelerada em meio à crise de covid-19 e a comparação com o uso desse instrumento em governos anteriores.
A Assembléia Legislativa do estado de São Paulo (Alesp) aprova Projeto de Lei (PL) que trata da Lei Orçamentária Anual (LOA) para o ano de 2021 [1], autorizando a retirada de R$ 454 milhões da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), uma das principais agências de fomento à pesquisa científica e tecnológica do país [2]. O corte representa 30% do total dos recursos que seriam destinados à agência de fomento [3]. O PL foi enviado pelo governador de São Paulo, João Dória (PSDB) em setembro e utiliza um mecanismo chamado de Desvinculacão de Receita de Estados e Municípios (DREM) que permite ao governo utilizar livremente determinado recurso [4]. Em 26 de novembro, entretanto, Dória havia negado que utilizaria a DREM para retirar a referida verba da agência de fomento [5]. Diante da redução orçamentária, a resposta do governo paulista é de que serão editados decretos complementares que possam repor os recursos da FAPESP e garentem que não haverá perdas ou cortes [6]. Pesquisadores da FAPESP, no entanto, vislumbram ‘retrocessos na pesquisa’ com a retirada de verbas e indicam que as universidades públicas do estado de São Paulo são responsáveis sozinhas por metade da produção científica de todo o pais [7]. A retração de verbas na produção de ciência também se acentua em meio à pandemia da covid-19, que evidenciou a necessidade do investimento ampliado nesta áreas [veja aqui].
Leia análises sobre as dificuldades enfrentadas pela pesquisa científica na pandemia e a possibilidade da ciência perseverar, a importância da ciência como alternativa para os problemas epidemológicos, e a necessidade de preservação da FAPESP neste contexto
Após governo federal ter gasto mais de R$15 milhões na compra de leite condensado, fato que teve ampla cobertura pela imprensa, o presidente Jair Bolsonaro xinga a imprensa e faz afirmações sem mostrar evidências de sua veracidade [1]. O governo federal utilizou de recursos públicos para comprar mais de R$15 milhões em leite condensado no ano de 2020, valor que foi cinco vezes superior, por exemplo, ao repassado para o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) para monitorar, via satélite, o desmatamento e as queimadas na Amazônia e Pantanal durante o mesmo período [2]. Os gastos totais do governo federal em 2020 com alimentação ultrapassaram o montante de R$1,8 bilhão e foram amplamente repercutidos pela mídia [3] [4], tornando-se alvo de investigação pelo Tribunal de Contas da União (TCU), após parlamentares da oposição apresentarem ação ao tribunal [5]. Dias após a repercussão midiática, o Portal da Transparência – que detalha os gastos públicos do governo federal – fica fora do ar [6] e o presidente Bolsonaro, durante almoço com ministros e aliados, ataca a imprensa: ‘Quando vejo a imprensa me atacar dizendo que comprei 2 milhões e meio de latas de leite condensado, vai pra puta que o pariu, imprensa de merda! É pra enfiar no rabo de vocês da imprensa essas latas de leite condensado’ [7]. Além dos xingamentos, Bolsonaro afirma que os gastos de seu governo foram inferiores aos realizados pela gestão da ex-presidenta Dilma Rousseff em 2014, sem apresentar, contudo, evidências da afirmação [8]. Posteriormente, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, sai em defesa do presidente durante entrevista à rádio Jovem Pan e afirma que a postura ofensiva dele é apenas seu ‘estilo’ de se expressar; Araújo também afirma não considerar sua postura ‘infantil’, após ter dado risada dos xingamentos proferidos por Bolsonaro e incentivado o coro de ‘mito!’ aos demais presentes [9]. Ataques à imprensa tem sido marca do governo Bolsonaro desde o início de sua gestão: em 2019, foram contabilizados ao menos 116 ataques do presidente contra jornalistas [veja aqui], enquanto em 2020 foram ao menos 580 ataques à imprensa por parte de Bolsonaro [veja aqui].
Leia análise sobre o que é e quais as funções do Portal da Transparência
Governo estadual do Acre decreta estado de calamidade pública em dez municípios após enchentes afetarem cerca de 130 mil pessoas no estado [1], seis dias depois de já ter declarado situação de emergência [2]. O forte volume das chuvas e o transbordamento de rios e igarapés inundaram diversas regiões do estado, causando estragos e desalojando famílias [3]. O decreto estadual tem validade de 90 dias e permite a Defesa Civil acreana mobilizar todos os órgãos públicos necessários ao combate da crise e convocar voluntários para reforçar as equipes das ações, entre outras medidas [4]. O decreto também autoriza as autoridades públicas a entrar sem autorização nas casas, usar propriedades particulares que julgarem necessárias, podendo inclusive desapropriá-las, sob a justificativa de emergência ao enfrentamento do desastre [5]. No plano federal, o Ministério do Desenvolvimento Regional reconheceu no mesmo dia, o estado de calamidade pública nos dez municípios [6]. O governo Bolsonaro ainda publicou uma medida provisória (MP) [7] liberando R$ 450 milhões para ações de defesa civil e assistência a vítimas das enchentes do Acre e de outros estados afetados pelas fortes chuvas do início do ano. Entretanto, apesar de editada sob a justificativa de socorro financeiro extraordinário aos estados, a MP não especifica em sua redação a alocação desses gastos por meio do Ministério do Desenvolvimento Regional – que é o principal responsável pela destinação de verbas a obras públicas apoiadas pelo governo federal em todo território nacional [8] – ou dos estados favorecidos, limitando-se a descrever as finalidades do crédito a ‘ações de proteção e defesa civil nacional’ [9]. Em janeiro de 2021, tanto o estado de calamidade pública quanto a situação de emergência pela crise da covid-19 já haviam sido prorrogadas por tempo indeterminado [10].
Saiba mais sobre o significado de estado de calamidade pública.
O Congresso Nacional derruba veto presidencial e perdoa dívidas bilionárias de Igrejas, após o próprio presidente Jair Bolsonaro ter recomendado derrubada de seu veto [1]. Na Câmara, o placar para a derrubada do veto é de 439 a 19 e no Senado, 73 parlamentares votaram para o perdão, apenas o senador Romério (Podemos-RJ) votou contra [2]. A proposta que beneficia entidades religiosas é do deputado David Soares (DEM-SP) [3], fundador da Igreja Internacional da Graça de Deus, que está entre as principais devedoras frente à União [4]. A lei aprovada [5] remove templos da lista de pessoas jurídicas consideradas pagadoras do tributo, sob justificativa de que a Constituição Federal dá proteção tributária às igrejas [6]. Na Receita Federal, as dívidas de igrejas chegam a 1 bilhão, e na Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional(PGFN) foram registrados R$462 milhões em dívidas [7]. O perdão à dívidas de entidades religiosas havia sido vetado por Bolsonaro em setembro do ano passado, orientado pela equipe econômica e temendo não cumprir com as leis orçamentárias, porém, na ocasião, ele mesmo sugeriu que o Congresso votasse contra a sua própria decisão: ‘se fosse senador ou deputado, votaria pela derrubada’, disse o presidente [8]. O veto é criticado pela equipe econômica do governo pelo grande volume de impostos que deixam de ser arrecadados pelo governo federal [9]. O Tribunal de Contas da União (TCU) tem feito alertas sobre a necessidade de mensurar o impacto econômico das medidas aprovadas pelo Congresso, já que tais medidas podem contribuir para configurar irregularidade orçamentária nas contas do governo federal [10].
Leia sobre como funcionam os vetos presidenciais, veja infográfico a respeito e entenda os recordes de derrubada de vetos no governo Bolsonaro.
O presidente da República, Jair Bolsonaro, afirma que o Tribunal de Contas (TCU) da União deixou de ser um órgão que ‘amedrontava’ e passou a ‘antecipar problemas’, durante a abertura do Fórum Nacional de Controle [1]. Bolsonaro também declara que o tribunal ‘participa das decisões como se fosse um ‘órgão integrado’ ao governo federal e que tem atuado para ‘evitar que processos sigam avante’ [2]. A fala de Bolsonaro ocorre em meio à possibilidade de transgressão do teto de gastos para pagar o Auxílio Brasil, por meio da Proposta de Emenda Constitucional dos Precatórios [veja aqui]. A violação do teto de gastos é vista por especialistas como um indício de irresponsabilidade fiscal [3]. No mesmo dia da fala de Bolsonaro, o ministro do TCU, Augusto Nardes, sugere um ‘pacto’ com o Legislativo para o governo federal ‘gastar um pouco mais’ [4]. Vale ressaltar que, em junho deste ano, Bolsonaro usou um relatório falso advindo de auditor do TCU para afirmar que 50% das mortes no Brasil em 2020 não haviam sido em decorrência da covid-19 [veja aqui].
Leia sobre a suposta aproximação de Bolsonaro e o Tribunal de Contas da União.
Os ministérios da Saúde, Educação, Ciência e Tecnologia, Cidadania e Agricultura não divulgam em suas páginas na internet documentos que deveriam mostrar a comunicação entre as pastas e o relator-geral do orçamento da União [1]. A não publicação das informações contraria um decreto assinado pelo presidente Jair Bolsonaro [2]. O decreto, editado em 09 de dezembro de 2021, cumpre decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) e dispõe que os pedidos de verbas realizados por parlamentares e recebidos pelo Executivo tornem-se públicos na plataforma +Brasil, que reúne informações sobre transferências de recursos do governo [3]. Os ministérios mencionados são cinco das sete pastas que mais receberam verbas do orçamento secreto em 2021 [4]. O ministério da Cidadania, até este momento, embora afirme que irá publicar as informações, não apresenta nada neste sentido em seu site [5]. Já o Ministério da Agricultura publica links genéricos, sem tornar públicas as comunicações com o relator do orçamento, dizendo apenas que ‘em breve, estas informações também estarão disponíveis nesta página’ [6]. Os ministérios da Saúde, Educação e Ciência e Tecnologia ainda não se manifestaram e não respondem questionamento de jornalistas [7]. Segundo levantamento da Organização Transparência Internacional, o Brasil perdeu posições no ranking mundial do Índice de Percepção da Corrupção [veja aqui]. O presidente Bolsonaro já foi denunciado à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), por adotar medidas que enfraquecem o combate a corrupção, como a manutenção do próprio orçamento secreto [veja aqui], prática revelada em 2021 e que envolveu o repasse de R$ 3 bilhões em emendas parlamentares [veja aqui].
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Atos que trazem como justificativa o enfrentamento da pandemia de covid-19 ou outra emergência. Sob o regime constitucional democrático, atos de emergência devem respeitar a Constituição e proteger os direitos à vida e à saúde. Mesmo assim, por criarem restrições excepcionais ligadas à crise sanitária, requerem controle constante sobre sua necessidade, proporcionalidade e limitação temporal. A longo prazo, demandam atenção para não se transformarem em um 'novo normal' antidemocrático fora do momento de emergência.
Atos que empregam ferramentas da constante reinvenção autoritária. Manifestações autoritárias que convivem com o regime democrático e afetam a democracia como sistema de escolha de representantes legítimos, como dinâmica institucional que protege direitos e garante o pluralismo.