A Controladoria-Geral da União (CGU) abre processo contra dois professores universitários que criticam o presidente Jair Bolsonaro: o ex-reitor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) Pedro Hallal e o professor Eraldo dos Santos Pinheiro [1]. O processo é motivado pela iniciativa do deputado federal Bibo Nunes (PSL-RS). O parlamentar entrou com representação na CGU, considerando ‘infração disciplinar’ por ‘manifestação desrespeitosa e de desapreço direcionada ao Presidente da República’ durante lives ocorridas em janeiro deste ano dentro da UFPel [2]. As manifestações se deram em decorrência do resultado das eleições para a reitoria da UFPel, no final do ano passado, onde os professores foram contra a nomeação da atual reitora, a segunda mais votada no processo eleitoral da universidade [3]. Mesmo perdendo as eleições, a professora Isabela Andrade foi nomeada por Jair Bolsonaro, pois a previsão legal é de que reitores de Universidades Federais sejam nomeados pelo Presidente da República [4], porém o ato interrompe a tradição da nomeação do primeiro colocado na lista tríplice elaborada pelo conselho universitário [5]. Os docentes, que durante as lives proferiram diversas críticas ao governo, são chamados pela CGU a prestar esclarecimentos [6]. Os professores tiveram que assinar Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) se comprometendo a não repetir os atos nos próximos dois anos [7]. Com as assinaturas do TAC os processos disciplinares foram arquivados [8]. Um dos professores é epidemiologista formado pela UFPel e publicou artigo onde aponta que as medidas anticientíficas tomadas pelo governo Bolsonaro agravaram a crise sanitária no País [9].Ele diz ser muita coincidência que um processo disciplinar seja instaurado contra um dos maiores críticos da atuação do governo durante a pandemia e afirma que assinou o termo para por uma ‘pedra no assunto’, mas que continuará emitindo suas opiniões [10].O outro professor que assinou o TAC diz que foi uma ‘tentativa de silenciar’ aqueles que criticam o governo [11]. Em apoio aos docentes, o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento emite nota classificando a ação da CGU como intimidatória e aponta para o risco do uso de ‘instrumentos jurídicos para constranger a liberdade de expressão’ [12]. Questionada, a CGU não respondeu se existem outros processos da mesma natureza tramitando no órgão e que o TAC tem caráter consensual e não é um instrumento punitivo [13]. Coincidentemente, o caso veio a tona junto com ofício do Ministério da Educação (MEC) pedindo que as universidades federais tomem providências para ‘prevenir e punir atos político-partidários’; contudo, o ofício foi suspenso pelo próprio MEC após a repercussão do caso dos professores denunciados [14] [veja aqui]. Em julho do ano passado, a CGU editou norma técnica para monitorar e punir servidores públicos por manifestações nas redes sociais [veja aqui]. Em outubro de 2020, o figurou como destaque negativo no ranking sobre diminuição da liberdade de expressão [veja aqui]. O Supremo Tribunal Federal (STF) já havia decidido anteriormente pela inconstitucionalidade de atos que atentem contra a liberdade de expressão de alunos e professores e tentativas de impedir a propagação de ideologias ou pensamento dentro das universidades [15]. A prática de não nomear os primeiros colocados das listas tríplices para as reitorias das universidades federais já foi realizada por Bolsonaro e pelo MEC, ao menos, 15 vezes desde o início de sua gestão [16].
Veja linha do tempo sobre nomeações de reitores universitários realizadas pelo governo Bolsonaro que romperam com a tradição de seguir o primeiro colocado nas eleições universitárias
Atos que trazem como justificativa o enfrentamento da pandemia de covid-19 ou outra emergência. Sob o regime constitucional democrático, atos de emergência devem respeitar a Constituição e proteger os direitos à vida e à saúde. Mesmo assim, por criarem restrições excepcionais ligadas à crise sanitária, requerem controle constante sobre sua necessidade, proporcionalidade e limitação temporal. A longo prazo, demandam atenção para não se transformarem em um 'novo normal' antidemocrático fora do momento de emergência.
Atos que empregam ferramentas da constante reinvenção autoritária. Manifestações autoritárias que convivem com o regime democrático e afetam a democracia como sistema de escolha de representantes legítimos, como dinâmica institucional que protege direitos e garante o pluralismo.